Beleza · Saúde · Ser mulher

Demi Lovato, Diana Garbin… transtornos alimentares e o caminho da Autoaceitação

By Aline Souza

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Esse mês surgiram diversos rumores sobre a hospitalização da cantora e atriz Demi Lovato. Não vamos entrar em discussão sobre o motivo da internação da cantora, mas há um tempo atrás, Demi lançou um documentário falando sobre sua vida, carreira e sua relação com a comida, drogas e mais tarde o diagnóstico de Transtorno Bipolar. No documentário a artista conta como tem sido enfrentar tudo isso continuamente com suas frustrações e  cobranças sofridas, que geraram uma compulsão alimentar e mais tarde ocasionaram outros problemas como ansiedade e depressão.

Não vou negar que meu primeiro pensamento foi “como essa mulher linda e bem sucedida pode se sentir dessa maneira tão depreciativa?”, até chega a ser engraçado pois meu comentário me fez perceber que a Demi não é a única e diversas celebridades tem confessado publicamente suas visões distorcidas sobre o próprio corpo e mente, que acarretam em dietas malucas, cirurgias plásticas desnecessárias e distúrbios alimentares.

Um exemplo disso é a Jornalista Diana Garbin (tem um post aqui sobre o livro dela: Fazendo as pazes com o corpo) que desde 2016 tem um canal no youtube onde fala sobre transtornos alimentares. A própria Diana relata em um vídeo que sofre de Transtorno de Distorção de Imagem, ou o chamado de Distrofia Corporal que é uma síndrome onde a imagem corporal é distorcida e a preocupação obsessiva com algum defeito corporal suposto ou de mínima realidade, que afeta a aparência física prevalece. Tudo isso fez com que Diana sofresse desde os 5 anos com seu corpo dizendo que “queria uma magreza absurda”, recorrendo a medicamentos e cirurgias plásticas que a própria jornalista relata que eram desnecessárias para ela.

Percebemos que tem crescido o número de pessoas que vem utilizando as mídias sociais para falar do padrão de beleza que é cada vez mais restrito, seletivo e raro de se encaixar. Afinal, até onde a beleza deve ser considerada única? (Tem um post aqui falando sobre padrão de beleza. Clique e leia) É padrão sermos todas iguais? Onde está registrado que devemos ser magras ao ponto de sermos quase esqueléticas, porque beleza que se preze deve garantir cintura fina, pernas bem torneadas e gominhos na barriga?

Vou confessar que esse é o texto mais difícil que eu já escrevi até hoje pois ele trata de problemas muito particulares e complicados sofridos por mim durante a minha trajetória até aqui, mas eu creio que chegou a hora de colocar para fora toda essa bagunça daqui de dentro e assim como a Demi ou a Diane eu luto com minha aparência e me deprecio e puno com facilidade quase todo dia. Não sei dizer quando minha relação de ódio com meu corpo começou a se tornar tão ativa pra mim e até onde eu posso te dizer que estou livre dessa minha forma punitiva de me ver.

Eu sempre fui uma criança acima do peso e não importa onde eu estivesse eu sempre fui vista como “gordinha”, seja na escola, na igreja ou dentro de casa. Me recordo que já na alfabetização, com 6 ou 7 anos a minha mãe teve que ir na escola conversar com a professora sobre os apelidos que eu já sofria e que me faziam chegar em casa chorando quase todo dia. Mal  sabia que choraria muito ainda por me sentir um ser de outro mundo.

Lembro que com uns 8 anos eu me senti péssima quando ouvi que eu não conseguia recusar nem sequer uma bala e que deveria aprender que nem sempre deveria aceitar tudo o que me ofereciam. Eu brincava como qualquer outra criança, corria, raramente comia doces ou os considerados supérfluos como biscoitos recheados ou salgadinhos porque já era bem maior que qualquer outra criança da minha idade, não só de tamanho mas como peso e isso fazia com que meus pais me controlassem consideravelmente. Até ai eu ainda não era compulsiva por comida, e mesmo me sentindo a esquisita não me incomodava tanto assim.

Já com uns 12 anos eu não entendia porque na minha família eu era a única que estava acima do peso. Com pais magros e irmãs longilíneas e esbeltas eu realmente acreditava que havia algo de errado comigo. Com a menarca eu acabei ganhando um pouco mais de peso e uma série de problemas hormonais (mais isso é assunto pra outro dia rs) o fui levada a diversos médicos, endocrinologistas e nutricionistas para solucionar meu ganho de peso. Vieram os exames rotineiros, medicamentos, dietas restritivas e academia já com 13 anos, natação, vôlei e mais uma infinidade de coisas.

Aos 15 comecei a apresentar uma mudança considerável no meu comportamento, baseado em muito choro e isolamento social. Eu sempre fui melancólica desde muito nova, mas os sintomas foram crescendo e deu um sinal de alerta na minha mãe que graças a Deus me levou a um psicólogo/ psiquiatra (ele possuía as duas formações) e já nas primeira sessões eu fui diagnosticada com Depressão e daí por diante seguiu-se um tratamento de um ano com terapia e mais medicamentos que me fariam emagrecer e muito mais exercícios e academia que eu largava na primeira oportunidade que aparecia.

Me recordo de uma sessão que eu não parava de chorar e não sabia dizer o que estava sentindo (não sei dizer como minha mãe aguentou aquilo) e que aos prantos eu disse que era muito gorda e que eu me sentia horrível e feia, então o psicólogo me fez ficar de pé e me olhou seriamente e disse “Não consigo ver toda a gordura que você relata”, nossa como eu chorei ouvindo aquilo.

 Depois de um ano de tratamento e com a redução paulatina dos medicamentos eu recebi alta. Foi a melhor fase da minha vida e eu realmente me sentia liberta, pena que isso duraria muito pouco.

Já perto de completar 17 anos eu tive meu primeiro namorado e os sintomas depressivos eram quase imperceptíveis. Prevalecia apenas uma mania “interna” de me ver inferior (o que é claro eu não admitia a ninguém), e também uma vontade de ficar sozinha constantemente. Eu apresentava um peso acima do ideal para minha idade e altura, porém não considerado obesidade. Nesse período de namoro eu pude aprender a valorizar o que eu tinha de melhor e namorar um rapaz que já era meu amigo a uns 4 anos ajudou bastante nisso.

Mas foi durante o primeiro ano de namoro que comecei a decair novamente e descobri que estava ganhando mais peso ainda e tudo começou a crescer novamente em mim. Foi quando descobri que comia compulsivamente e quando me sentia culpada por comer demais eu comia ainda mais para “matar” essa culpa que sentia.  Comia sozinha e escondida de todo mundo. E foi ai que descobri que minhas roupas já não estavam me cabendo e comecei a “praticar” a Bulimia. Começou modestamente, apenas quando tinha esses acessos compulsivos o que eram raros de acontecer.

Foi quando meu namorado percebeu que cada vez que saíamos para comer alguma coisa eu ia ao banheiro logo após comermos, e ele sabendo de todas as minhas noias com o corpo, desconfiado me questionou, e depois de ser pressionada acabei confessando que fazia algum tempo que eu praticava bulimia (digo que praticava porque não era rotineiro e graças a Deus parou antes de se intensificar). Ele “ameaçou” contar aos meus pais se eu não parasse e só em pensar em causar toda essa dor a eles eu parei com a Bulimia. Acho que até hoje eles desconhecem esse fato. Desculpe por isso mãe.

Fiz 18 anos, mudei de cidade, entrei na faculdade de psicologia (eu queria entender a minha cabeça rs), terminei o namoro e ai vieram as diversas dietas da lua, da sopa, do zero carboidrato e até da água. Não sei dizer quando pensei em morte a primeira vez. Só sei que queria que minha vida acabasse, porque não entendia como eu não era bonita, ou magra, ou firme suficientemente para ficar numa dieta até conseguir o resultado que eu esperava. Como se não bastasse toda a minha vida me punindo, comparando e sendo crítica comigo mesmo eu resolvi que deveria fazer alto mais trágico e cheguei a tomar uma cartela de remédios para dormir (graças a Deus eram fitoterápicos e o máximo que aconteceu foi eu ter muito sono) para ver o que ia dar. Desculpa por isso também, mãe.

Durante a faculdade eu entendi que meu processo depressivo pesava muito mais do que a minha balança diz sobre mim. E que apesar do meu espelho ressaltar todas as minhas imperfeições eu sou muito mais do que eu penso sobre mim mesma.

Descobri beleza onde nunca tinha visto, passei a sentir prazer em comer saudavelmente (adoro salada) e apesar de as vezes ainda ter episódios compulsivos eles são mais raros hoje em dia. Ainda não gosto de me exercitar, isso é péssimo  eu sei rs, mas já consigo priorizar o cuidado com o que eu como, não porque busco um corpo perfeito, mas por que eu quero ter saúde para viver mais. Meu peso ainda é irregular, e muito, meu efeito sanfona tem sido meu companheiro constante, mas eu precisava aprender a estar contente em tudo. E não é fácil, eu sei.

A auto aceitação é o caminho mais complicado que já percorri em toda a minha vida. Falar sobre dificuldades, problemas e se reconhecer como fraco, não é algo que fala só sobre a Demi, a Diana ou sobre mim. É sobre quem somos e como nos vemos e o que faremos para nos sentirmos como donas de nós mesmas, é trabalhar nossa autoestima, ter amor próprio e nos autovalorizamos.

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Nos conhecermos, nos aceitarmos, termos amor por nosso corpo, nossa mente, nossa alma. Cuidarmos no interior da mesma forma que cuidamos do exterior. É entender que o diferente é bom, e que exigir‐se apenas na medida certa e não segundo o socialmente aceitável. É entender que não há mal em se estar acima do peso, e que suas curvas não denigrem sua beleza. É saber que você pode estar gordo, magro, com estrias e celulites, não definem seu caráter, e que você é linda do jeito que é. Se quiser mudar, mude, desde que seja por amor a si e não pra se encaixar em algo que não nos define.

Promova sua beleza. Valorize suas diferenças. Respeite seu tempo. Tenha paciência com você mesma. Cuide de você. Pinte ou corte o cabelo, faça as unhas, troque de estilo, não importa o seja preciso, faça. Mas faça por você. Não aceite o mundo dizer que você ta fora do padrão. Você é o SEU próprio padrão. Sua beleza é única e não deve ser comparada a de mais ninguém. AME-SE e isso te levantará em cada tropecinho que der. E eu espero que sejam poucos e raros.

Eu continuo na luta, não me puno como antigamente, e também não desconto na comida todas as minhas decepções. Ainda sou bastante melancólica, e passo a maior parte do tempo comigo mesma do que com outras pessoas. Mas respeito meu tempo, meu corpo, meus limites e amo quem eu sou.

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Por Aline Souza mas para todas!!!

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